POTE MAROMBA

“A suplementação com creatina pode promover alterações fisiológicas e bioquímicas positivas no organismo, causando benefícios morfológicos e consequentemente promover melhoras no rendimento físico e desportivo.”
A creatina (ácido a-metil guanidino acético) é uma amina de ocorrência natural encontrada primariamente no músculo esquelético e sintetizada endogenamente pelo fígado, rins e pâncreas a partir dos aminoácidos glicina e arginina; ela também pode ser obtida via alimentação, especialmente pelo consumo de carne vermelha e peixes. Cerca de 95% da creatina é armazenada no músculo esquelético, sendo que o restante se situa no coração, músculos lisos, cérebro e testículos. Atualmente, são bem documentados os efeitos benéficos da suplementação de creatina, principalmente em atletas e indivíduos fisicamente ativos, devido aos seus efeitos ergogênicos sobre a massa muscular e o desempenho físico. Além disso, estudos recentes têm demonstrado que a suplementação de creatina pode ser boa em certos acometimentos neuromusculares, doenças crônico-degenerativas e tolerância à glicose. Vale lembrar que o Comitê Olímpico Internacional (COI) liberou o consumo dessa substância, alegando que a mesma não era considerada droga, mas apenas suplemento alimentar.
Vários são os estudos que evidenciaram maiores aumentos na massa magra em consequência da suplementação de creatina, combinada com o treinamento de força. Em meta-análise conduzida por Branch (Branch JD. Effect of creatine supplementation on body composition and performance: a meta-analysis), dos 67 estudos que mensuraram a massa corporal, 43 reportaram aumentos na massa corporal total e/ou massa magra decorrentes da suplementação de creatina.
À luz da presente literatura, ainda não se pode afirmar com clareza se essas adaptações são ocasionadas por efeitos diretos da suplementação de creatina ou se são mediadas pelo aumento no volume de treinamento. Contudo, os efeitos da suplementação de creatina na promoção de ganho de massa magra e força são contundentes. Em conjunto, os estudos descritos sugerem que os ganhos de força e massa magra advindos da suplementação de creatina são consequências dos aumentos de retenção hídrica, expressão gênica e eficiência da tradução de proteínas relacionadas à hipertrofia, além da proliferação e ativação de células satélites. Recentes achados têm indicado que a suplementação de creatina pode alterar a transcrição de fatores miogênicos regulatórios (aumentar a eficiência de tradução proteica através da via hipertrófica PI3K-AKT/PKB-mTOR e controlar a ativação, proliferação e diferenciação de células satélites).
Esse suplemento é prejudicial à função renal?
A dedução é simples e até mesmo lógica: a creatina é convertida espontaneamente em creatinina, a qual é excretada pelos rins. O excesso de creatina obtida pela suplementação geraria uma sobrecarga renal ao ser excretada. Os pesquisadores argumentaram que a nefrite intersticial aguda não é dose-dependente, porém admitem que, diante do pequeno número de casos na literatura, a suplementação de creatina tem baixo poder nefrotóxico. Poortmans et al (Effect of short-term creatine supplementation on renal responses in men), foram os pioneiros na busca de métodos sistemáticos para a avaliação da função renal em sujeitos suplementados com creatina. Os pesquisadores suplementaram cinco sujeitos saudáveis com creatina (20g/dia por cinco dias) ou placebo em um modelo cross-over. Análises de creatina e Creatinina urinária e plasmática foram realizadas após cada sessão experimental. A albuminúria e a proteinúria também foram avaliadas. Os resultados revelaram que, a despeito do aumento das concentrações sérica e urinária de creatina, as concentrações de Crn, ClCrn, taxa de excreção de albumina e proteína permaneceram inalterados. Os autores afirmaram que a suplementação aguda de creatina não tem efeito na função renal. A reduzida amostra desse estudo pode ser considerada uma grave limitação. A mesma equipe de pesquisa investigou o efeito crônico da suplementação de creatina na função renal. De maneira retrospectiva, os autores determinaram o ClCrn, albumina e uréia em usuários (dez meses a cinco anos) ou não de creatina. Os resultados não demonstraram diferenças significantes entre os grupos. Diante disso, os autores concluíram que a suplementação de creatina, em médio e longo prazo, também não afetava a função renal.

Fonte:
Artigo de revisão: Revista Brasileira de Medicina do Esporte: Efeitos da suplementação de creatina sobre força e hipertrofia muscular: Effects of creatine supplementation on strength and muscle hypertrophy: current concepts; Bruno Gualano; Fernanda M. Acquesta; Carlos Ugrinowitsch; Valmor Tricoli; Júlio C. Serrão; Antonio Lancha Junior vol.16 no.3 Niterói May/June 2010.

Poortmans JR, Auquier H, Renaut V, Durussel A, Saugy M and Brisson GR. Effect of short-term creatine supplementation on renal responses in men. Eur J Appl Physiol Occup Physiol 1997; 76: 566-7.
Branch JD. Effect of creatine supplementation on body composition and performance: a meta-analysis. Int J Sport Nutr Exerc Metab 2003;13:198-26

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